Mensagem do Reitor

Apesar de sermos uma instituição muito jovem, nem por isso nos devemos esquecer de que o que aqui fazemos é muito antigo, vem de muito longe e vai para muito longe: começou naquele dia perdido nos tempos em que pela primeira vez um ser humano percebeu que era preciso passar à geração seguinte a experiência e o saber que «o labor, o trabalho e a ação», como diria Hannah Arendt, lhe tinham proporcionado. Nesse dia longínquo, há dezenas de milhares de anos, esse ser humano deu início a uma das atividades mais belas e mais nobres da Humanidade: a Educação.

Somos uma Escola: um espaço vital criado para se praticar a experiência ativa e intensa da discussão entre professor e alunos, livres de pressões externas. Tudo o que fazemos e tudo o que pensamos, na Academia, encontra o seu sentido na aula, palavra que em grego antigo queria dizer «espaço livre». Planificamos, investigamos, orçamentamos, inventariamos, faturamos, carimbamos, arquivamos, imprimimos, autorizamos, limpamos, arrumamos – e tudo o mais que fazemos – em nome disso e para isso: para que o encontro entre professores e alunos, na aula, aconteça nas melhores condições possíveis. Por isso são os estudantes o núcleo, e os outros, todos os outros, os cuidadores dos estudantes que levam a sério a sua responsabilidade individual.

De cada vez que um estudante leva a sério o seu dever de aprender – que quer dizer perguntar, perguntar sempre, não se conformar com a ignorância, não desistir de querer compreender –; de cada vez que um professor leva a sério o seu ofício de ensinar – que também quer dizer perguntar, para fazer surgir perguntas e mais perguntas e mais perguntas, não se conformar com a falta de conhecimentos dos seus alunos, não desistir de lhes dar os meios para eles compreenderem cada vez mais –, sempre que isso acontece, é gerada uma força que nenhuma outra consegue derrotar: a força do compromisso de ensinar e aprender que assumimos com a sociedade. Por isso, é pouco dizer que preparamos os jovens para o mercado de trabalho. Sim, fazemo-lo, mas é muito mais do que isso. Por isso, é pouco dizer que transmitimos técnicas e conhecimentos. Sim, fazemo-lo, mas é muito mais do que isso. E por isso a aula é um dos espaços mais perigosos para os poderes autoritários: porque a força da Educação, a força que resulta de os homens se interrogarem, de os homens quererem saber mais, de quererem compreender melhor, de quererem, em suma, tomar conta da sua vida, essa força é assustadoramente poderosa.

Isto mesmo descobriu Malala Yousafzai, a jovem paquistanesa que, no dia 12 de julho de 2013, proferiu as seguintes palavras na ONU: «Queridos amigos, no dia 9 de outubro de 2012, os talibãs atiraram sobre mim, atingindo-me no lado esquerdo da testa. E também atiraram sobre os meus amigos. Acharam que a bala nos silenciaria, mas falharam. E do silêncio emergiram milhares de vozes. […] peguemos, peguemos nos nossos livros e nas nossas canetas. Eles são a nossa arma mais poderosa. Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução. A educação em primeiro lugar.»

Sejamos todos capazes, no nosso dia-a-dia, de dar corpo a essa missão tão bem definida por uma jovem de dezasseis anos. E de compreender que todas as outras atividades da nossa Academia (a internacionalização, a investigação, a transferência de conhecimento e tecnologia, a relação com a comunidade, a intervenção cultural e social, a administração e tantas outras) só fazem sentido se contribuírem para o cumprimento daquela missão principal.

O Reitor

António Branco