Investigadores descobrem capacidade regenerativa do sistema nervoso central num mamífero

Uma equipa de investigadores portugueses da Universidade do Porto, e da qual fazem parte Inês Aráujo, investigadora e vice-diretora do Algarve Biomedical Center Research Institute, da Universidade do Algarve, e Gustavo Tiscornia, investigador do Centro de Ciências do Mar (CCMAR), publicou na revista Developmental Cell um artigo que revela os mecanismos moleculares que permitem ao ratinho espinhoso Acomys cahirinus regenerar a espinal medula após lesão.
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A descoberta vem revolucionar um antigo paradigma, pois até hoje não se conhecia nenhum mamífero capaz de regenerar o Sistema Nervoso Central (SNC) e recuperar mobilidade após lesão da medula. Quebra-se, assim, uma enorme barreira no desenvolvimento de terapias para lesões imobilizantes.  

Recorde-se que a regeneração do sistema nervoso central de mamíferos adultos é virtualmente impossível pela incapacidade dos neurónios afetados reconstituírem os axónios que são afetados quando ocorre uma lesão, o que resulta numa paralisia dos membros. A espinhal medula contém longas extensões – os axónios – das células nervosas, chamadas neurónios. Esses axónios são responsáveis pela transmissão de informação a longa distância e permitem que percebamos a informação que recebemos de todas as partes do corpo, como a sensação de dor, calor, ou até outras informações que não tomamos consciência. Por outro lado, é pelos axónios que o nosso cérebro envia informação para que o nosso corpo execute uma ação, como contrair um músculo ou mover um membro. Quando essa comunicação é cortada, as ordens não são recebidas.

Como clarifica Mónica Sousa, coordenadora do projeto, este trata-se de um grande passo uma vez que “conhecem-se seres com capacidade regenerativa de membros inteiros, como o caso de alguns anfíbios, mas pensava-se que todos os mamíferos adultos perdiam por completo a capacidade regenerativa do SNC”.

No entanto, como explicam Gustavo Tiscornia e Inês Araújo*, investigadores da Universidade do Algarve e autores do estudo, “este [ratinho do género] Acomys é um mamífero extraordinário, pois a sua capacidade regenerativa também se verifica noutros sistemas e órgãos, como pele e músculos”.

Ao longo deste estudo a equipa mostrou que o rato espinhoso (Acomys ahirinus) é uma exceção entre todos os mamíferos, uma vez que é capaz de restaurar a função locomotora após uma lesão grave da espinhal medula.

Quando observado em detalhe, os investigadores verificaram que ocorria, no local de lesão na medula do Acomys cahirinus, uma regeneração robusta de axónios, permitindo a formação de sinapses e a propagação de sinal eletrofisiológico. Algo único entre os mamíferos.

O trabalho desenvolvido pelos investigadores da Universidade do Porto e da Universidade do Algarve representa um novo paradigma na investigação biomédica e, mais concretamente, na área do sistema nervoso central, onde o Acomys trouxe novos desenvolvimentos e pistas de investigação futura.

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*Inês Araújo é atualmente docente da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve.
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