Investigador lidera equipa internacional que estudou morfologia das mandíbulas humanas

Para conhecer melhor o efeito da introdução da agricultura na Península Ibérica, Ricardo Miguel Godinho, investigador do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB) da Universidade do Algarve, liderou uma equipa internacional de investigadores de Portugal e Israel que estudaram as mandíbulas das pessoas que viveram entre o período Mesolítico e Calcolítico, incluindo, portanto, o período em que a agricultura foi introduzida, nos atuais territórios de Portugal e Israel.
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Há um velho adágio que diz que “nós somos aquilo que comemos”. Os investigadores que estudam a invenção e difusão da agricultura há muito tempo, analisam a influência que o consumo de cereais e alimentos mais processados teve na forma das nossas faces, assim como em muitos outros problemas de que sofremos atualmente. Por exemplo, o consumo de comidas mais moles e com muitos hidratos de carbono aparenta resultar em dentes apinhados e na formação de cáries. Porém, um estudo recente, publicado na Nature Scientific Reports, sugere que o que as pessoas comiam é menos importante para a forma das suas faces do que a sua ancestralidade.

Durante grande parte da nossa história evolutiva fomos caçadores e recolectores. A invenção da agricultura e pastorícia no próximo oriente, há aproximadamente 10000 anos antes da nossa Era, proporcionou uma nova forma de subsistência e novos alimentos para consumo. Os investigadores podem detetar estas mudanças na dieta, estudando, por exemplo, o desgaste dentário, análises químicas de isótopos relacionados com a dieta, e análises metagenómicas do tártaro dentário. A mudança para uma dieta maioritariamente agrícola também teve impacto na forma de ossos do nosso aparelho mastigatório (as mandibulas). O osso é um tecido dinâmico e plástico que se adapta às cargas mecânicas, e com a introdução de alimentos mais processados as mandíbulas tornaram-se mais pequenas e gráceis.

Os estudos de genética demonstram que as populações migratórias que difundiram a agricultura pela Europa substituíram e também se misturaram com as populações locais caçadoras-recolectoras pré-existentes, tendo tido descendência em comum. Em cerca de 5500 antes da nossa Era, populações agro-pastoris chegaram à Península Ibéria, mas, refere Ricardo Miguel Godinho, cocoordenador do laboratório de Osteoarqueologia do ICArEHB e autor principal do artigo: “Apesar de muitos estudos anteriores, ainda há muito que desconhecemos, como esta grande transição populacional e o estilo de vida impactou a população Ibérica, incluindo a forma das suas faces”.

Para além de abordagens convencionais para examinar, por exemplo, o desgaste dentário, a equipa também usou técnicas digitais para estudar a morfologia mandibular. Estas técnicas são fundamentais porque permitem a reconstrução objetiva dos espécimes arqueológicos (que estão frequentemente fragmentados e distorcidos), assim como uma análise muito mais detalhada das diferenças de forma. Estas técnicas incluíram a digitalização dos espécimes através de TAC e digitalização de superfície, e a utilização de programas de computador para visualização 3D e recolha e análise de dados. Esta abordagem permitiu analisar se efetivamente existem diferenças na morfologia mandibular entre populações e o que poderá explicar tais hipotéticas diferenças.

Os resultados deste estudo de vários anos demonstram que as diferenças de forma que existem entre estas populações Mesolíticas, Neolíticas e Calcolíticas resultam, maioritariamente, de diferenças na história populacional.

“Os nossos resultados são consistentes com estudos anteriores de ADN antigo que mostram diferenças entre as populações Mesolíticas Ibéricas e as originárias do sul do Levante. Mas, mais importante, os nossos resultados mostram que a forma das mandíbulas dessas pessoas que viveram na transição do Mesolítico para o Neolítico na Península Ibérica se deve maioritariamente à história populacional e à ancestralidade. A dieta tem certamente impacto, mas muito mais reduzido que a estrutura populacional”, diz Patricia Smith da Universidade de Jerusalém e autora sénior do artigo.

Este estudo, disponível aqui em acesso livre e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e pela Universidade de Jerusalém (através do programa Synthesys+), continuará a analisar o impacto da transição do modo de subsistência caçador-recolector Mesolítico para o agro-pastoralismo Neolítico, incluindo mais coleções de outras regiões.

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