José Teixeira conta que a imagem foi captada na Antártida, na ilha King George, durante uma saída de amostragem integrada na sua dissertação de mestrado. Enquanto realizava arrastos de plâncton com a equipa de investigação, recorda que avistou “um enorme iceberg com vários pinguins no topo”. Ao aproximar-se pelo outro lado, reparou numa fratura profunda que atravessava o gelo “de cima a baixo”, um momento que descreve como “hipnotizante”.
Segundo o estudante, a fotografia representa simultaneamente “fragilidade e equilíbrio”. Apesar da calma transmitida pela paisagem antártica, a fratura visível no iceberg cria uma sensação evidente de tensão e vulnerabilidade, associada ao estado atual do planeta e à pressão constante exercida sobre os ecossistemas. Foi precisamente essa ligação às alterações climáticas que o motivou a participar no concurso. José Teixeira explica que guardava esta imagem há algum tempo e que encontrou no tema desta edição o contexto ideal para a partilhar, tratando-se de um registo captado “num local onde as consequências das alterações climáticas são impossíveis de ignorar”.
Embora a fotografia tenha sido captada de forma espontânea, com um telemóvel e a partir de um semirrígido em movimento, durante trabalho científico no mar, José Teixeira considera que a imagem acabou por ganhar “muita força” do ponto de vista simbólico, estético e até filosófico. O estudante explica que a fratura no gelo transmite “uma sensação quase inevitável de rutura e vulnerabilidade, enquanto os tons azuis e brancos da paisagem antártica criam uma calma quase contraditória”. Para o vencedor do concurso, foi precisamente essa mistura entre beleza e fragilidade que tornou a fotografia especialmente marcante.
Um olhar sobre o planeta através da Biologia Marinha
O interesse de José Teixeira pela fotografia acompanha-o há vários anos, mas ganhou uma nova dimensão com a entrada em Biologia Marinha. O estudante revela que chegou ao curso com a ideia de se tornar videógrafo, motivado pelo desejo de documentar animais, paisagens e ecossistemas e de mostrar às pessoas realidades que muitas vezes nunca teriam oportunidade de conhecer de outra forma. Nas suas fotografias, procura sobretudo transmitir “admiração e ligação à natureza”, acreditando que uma imagem pode contar uma história muito maior do que o instante exato em que foi captada.
Atualmente a desenvolver a sua tese de mestrado, José Teixeira considera que a Biologia Marinha lhe deu uma forma diferente de olhar para o planeta. “Não vejo o ser humano como o centro de tudo”, afirma, explicando que passou a encarar os ecossistemas como “sistemas complexos e interligados, com valor para além da utilidade que possam ter para a humanidade”. A experiência na Antártida reforçou ainda mais essa consciência, tornando “impossível ignorar a dimensão destes sistemas, a sua importância e a rapidez com que estão a mudar”.
Para o vencedor do concurso, a fotografia continua igualmente a assumir um papel importante na sensibilização ambiental. José Teixeira defende que “poucas coisas aproximam tanto as pessoas de lugares distantes como uma imagem ou um documentário”, sublinhando a capacidade da fotografia para criar ligação emocional e despertar curiosidade sobre o planeta. O estudante destaca ainda a importância de continuar a mostrar imagens reais da natureza numa altura em que existe cada vez mais conteúdo artificial e gerado por inteligência artificial, considerando que existe “um valor muito forte” em saber que aquele momento existiu realmente.
Embora não tenha, para já, projetos específicos ligados à fotografia, José Teixeira acredita que esta continuará sempre presente no seu percurso pessoal e científico, acompanhando futuras expedições, projetos e experiências ligadas ao oceano e aos ecossistemas marinhos. Ainda assim, o estudante reconhece que nem todos os momentos precisam de ser registados e que, por vezes, “é importante simplesmente baixar a câmara e aproveitar o momento”.